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Artigo

Tratamento de HPV: por que a verruga volta

Por Dr. Julio Cesar Campos Bissoli — CRM 120296 SP | RQE 57058 — Responsável pelo Setor de Urologia Reconstrutiva e Cirurgia de Uretra do HCFMUSP

O tratamento de HPV assusta menos quando a pessoa entende a lógica por trás dele. E essa lógica é mais simples do que parece. Recebo com frequência pacientes que trataram uma verruga, viram a lesão sumir e, meses depois, encontraram outra ali por perto. A pergunta que trazem é sempre a mesma: “não tinha me curado?”. A resposta honesta é que curamos a lesão, não necessariamente o vírus. Explico neste texto o raciocínio que uso no consultório e no Setor de Urologia Reconstrutiva do HC para conduzir esses casos.

HPV e verruga são a mesma coisa?

Não são a mesma coisa, mas andam de mãos dadas. O HPV é o vírus — o papilomavírus humano. A verruga genital, que tecnicamente chamamos de condiloma acuminado, é uma das lesões que esse vírus provoca na pele e nas mucosas. Toda verruga genital tem, por trás, algum subtipo do HPV. O contrário não vale: existem mais de 200 tipos de HPV, e boa parte das infecções nunca produz uma verruga que dê para ver a olho nu.

Gosto de deixar isso claro logo no começo porque muita gente chega apavorada, misturando “verruga” com “câncer” e “HPV” com “sentença”. São coisas diferentes. A maioria das verrugas genitais é causada por tipos de HPV que não estão ligados a tumor, e a maior parte das infecções o próprio corpo resolve sozinho ao longo do tempo.

Recebi uma biópsia com “neoplasia intraepitelial”. Isso é câncer?

Não é câncer. Essa é a resposta curta, e faço questão de dar antes de qualquer explicação, porque a palavra “neoplasia” no laudo costuma tirar o sono do paciente. Foi exatamente um caso assim que atendi há pouco tempo no consultório: verruga biopsiada, laudo com o termo neoplasia intraepitelial, e o paciente convencido de que estava com um tumor.

Vou traduzir. A pele e as mucosas têm uma camada mais superficial, o epitélio. Uma neoplasia intraepitelial é uma lesão em que as células daquela camada estão alteradas, mas essas células continuam confinadas ali, na superfície. Elas não atravessaram a fronteira para os tecidos mais profundos. É essa invasão dos tecidos profundos que caracteriza um câncer — e é justamente ela que não aconteceu aqui.

Pense num muro recém-pintado com a tinta ainda na superfície: enquanto a tinta não penetra na parede, você lida só com o acabamento. A neoplasia intraepitelial peniana é considerada uma lesão precursora, não invasiva, do carcinoma — precursora quer dizer que, em uma parcela dos casos e ao longo do tempo, ela pode evoluir. Por isso ela pede atenção e acompanhamento. Mas atenção não é o mesmo que pânico, e lesão precursora não é o mesmo que câncer.

O princípio do tratamento: eliminar o que se vê e vigiar o resto

O tratamento de HPV, na prática, se apoia quase sempre no mesmo raciocínio: eliminar toda a lesão visível e manter vigilância ativa para o surgimento de novas lesões. O objetivo do tratamento das verrugas anogenitais é a destruição das lesões, e as ferramentas para isso são conhecidas — agentes químicos aplicados no consultório, crioterapia (o congelamento), cauterização, remoção cirúrgica e cremes que estimulam a imunidade local, escolhidos caso a caso conforme o tamanho, o número e a localização das verrugas.

Costumo explicar esse princípio aos meus pacientes com uma imagem que ficou comigo ao longo dos anos: a da erva daninha num vaso de plantas. Se você vai até a terra e arranca a erva daninha, o vaso fica limpo. Naquele momento, não há mais nada visível para tratar. O que resta é observar. Se nascer uma nova erva, você arranca assim que ela aparece. É esse o espírito da vigilância ativa: você não vive tratando à toa, você trata o que surge, quando surge.

Organizo o passo a passo assim, no meu dia a dia:

  1. Se há lesão visível → removo ou destruo toda a lesão presente.
  2. Se, após a remoção, não sobra nada visível → não há o que tratar naquele momento; entro em vigilância ativa.
  3. Se surge uma nova lesão durante o acompanhamento → trato a nova lesão assim que ela aparece.
  4. Se as lesões se repetem muitas vezes ou aparecem em grande número → passo a considerar um tratamento complementar, preventivo.

Repare que o laudo histológico, quando a lesão foi removida por completo, pesa menos na decisão do que muita gente imagina. O peso muda quando a lesão não pôde ser retirada inteira — por ser muito grande, por questão estética, por localização difícil. Aí sim entramos num terreno de tratamento individualizado, com decisões tomadas uma a uma.

Por que a verruga do HPV volta depois do tratamento?

Aqui está o ponto que mais gera frustração, e que explica o título deste texto. O tratamento das verrugas anogenitais não elimina o vírus. Nós destruímos a lesão; o HPV pode continuar presente no organismo. Independentemente de a pessoa tratar ou não, as lesões podem desaparecer, permanecer estáveis ou voltar a aparecer — e as recidivas são mais comuns nos primeiros meses após o tratamento.

Volto ao vaso. Arrancar a erva daninha limpa a superfície, mas não muda a terra. Se a “terra” — no nosso caso, o equilíbrio entre o vírus e a sua imunidade — continua permitindo, outra erva pode brotar. Não é falha do tratamento nem descuido seu. É a natureza da infecção. Entender isso muda a relação do paciente com o problema: em vez de esperar uma cura definitiva num único procedimento, ele passa a entender que estamos administrando um processo.

Quando eu proponho um tratamento preventivo complementar

Nem todo mundo precisa ir além de tratar a lesão e observar. A maioria dos casos se resolve nesse ritmo. Mas há dois cenários em que fico mais atento e passo a considerar um passo a mais.

O primeiro é o das múltiplas lesões no espaço: em vez de uma verruga isolada, o paciente aparece com cinco, seis lesões espalhadas. O segundo é o das múltiplas lesões no tempo: é a quinta vez que removemos verrugas naquela mesma região. Nos dois casos, começo a entender que a “terra” tem algum problema — que a imunidade daquele sistema está predispondo ao aparecimento de novas lesões.

urologista avaliando verruga hpv

Os sinais que me fazem repensar a conduta e conversar sobre tratamento complementar são, na prática:

  • Recidivas frequentes no mesmo local, tratamento após tratamento.
  • Grande número de lesões surgindo ao mesmo tempo.
  • Lesões que voltam em intervalos cada vez mais curtos.

Nesses casos, faz sentido agir não só sobre a verruga que está ali, mas sobre a tendência de o corpo produzir novas verrugas — com abordagens que estimulam a imunidade e, em quem se enquadra, o papel da vacinação, que pode ajudar a reduzir as recorrências. É uma decisão que tomo junto com o paciente, olhando a história dele, não uma receita fixa.

Preciso saber qual subtipo de HPV eu tenho? E fazer biópsia sempre?

Na maior parte das vezes, não. E essa costuma ser uma das informações que mais aliviam quem chega ao consultório imaginando uma bateria de exames sofisticados. A tipagem do HPV — descobrir se é o subtipo 6, 11, 16 e por aí vai — não é recomendada para o manejo de rotina das verrugas anogenitais, simplesmente porque o resultado não muda a conduta. Do mesmo modo, o diagnóstico das verrugas costuma ser feito pela inspeção visual, e a biópsia fica reservada para situações específicas: lesões com aspecto atípico, lesões que não respondem ao tratamento habitual ou dúvida diagnóstica.

Ou seja: na maioria dos casos, não preciso de PCR, hibridização in situ ou tipagens elaboradas para conduzir o problema. Preciso examinar, tratar o que está visível e acompanhar.

Por que o tratamento do HPV no homem é diferente do da mulher

Essa diferença tem uma explicação anatômica direta, e é o que me permite, no homem, trabalhar com vigilância sem recorrer a biópsias o tempo todo. No homem, as lesões do HPV são, em geral, externas e visíveis — no pênis, na bolsa escrotal, na região ao redor. Isso significa que dá para inspecionar, eliminar a verruga e acompanhar o surgimento de novas lesões olhando. A própria vigilância ativa vira uma ferramenta acessível.

Na mulher, boa parte do risco relevante está no colo do útero, uma área interna, que não se examina a olho nu numa consulta comum. É por isso que na saúde da mulher existe todo um rastreamento estruturado — o Papanicolau, exame preventivo que busca justamente lesões precursoras do câncer de colo do útero, que podem ser tratadas antes de virarem câncer. São estratégias distintas para realidades anatômicas distintas.

Aspecto No homem Na mulher
Localização típica das lesões Externa, visível (pênis, escroto, região perianal) Pode ser interna, no colo do útero
Como se acompanha Inspeção visual e vigilância ativa Rastreamento específico (ex.: Papanicolau)
Biópsia de rotina Geralmente não; só em lesões atípicas Conforme protocolo de rastreamento e achados

As verrugas do HPV podem desaparecer sozinhas?

Podem, sim. A maioria das infecções pelo HPV tem resolução espontânea pelo próprio organismo, num período de até cerca de 24 meses. Existe até a possibilidade, em situações selecionadas, de simplesmente aguardar. Mas vale um esclarecimento que dou sempre: optar por tratar a verruga visível costuma fazer sentido pelo alívio dos sintomas, pelo incômodo estético e emocional que a lesão provoca e para reduzir a chance de transmissão. Não tratar é uma escolha possível em alguns cenários, não uma regra.

O tratamento de HPV cura o vírus? Como fica depois?

O tratamento cura a lesão, não o vírus. Repito isso ao longo da consulta porque é o mal-entendido mais comum. Depois de eliminarmos as verrugas, o HPV pode permanecer no organismo, muitas vezes sob controle da própria imunidade, sem produzir novas lesões. As pessoas com verrugas se beneficiam, também, de investigar outras infecções sexualmente transmissíveis, já que a presença de condiloma pode funcionar como um marcador de exposição. E há um detalhe que costumo reforçar: o vírus pode ser transmitido mesmo sem verruga visível, o que torna a conversa sobre prevenção parte do tratamento, não um apêndice dele.

É aqui que a vacinação contra o HPV entra como aliada, e que a orientação sobre como se proteger do HPV e das verrugas deixa de ser detalhe e vira parte central do cuidado. Vale lembrar que nem toda lesão pequena na pele do pênis é HPV: algumas são variações anatômicas benignas, como as glândulas de Tyson e pápulas perláceas, que não têm nada a ver com o vírus e não exigem tratamento. Diferenciar uma coisa da outra é exatamente o tipo de dúvida que a inspeção no consultório resolve.

Resumindo o fluxograma que uso

De modo geral, o caminho é este: eliminar as lesões visíveis, manter vigilância ativa ao menor sinal de novas lesões e, nos casos específicos de múltiplas lesões no tempo e no espaço – por que a verruga volta -, propor um tratamento complementar preventivo. Esse raciocínio serve para a verruga genital e, em boa medida, para qualquer verruga. É simples de enunciar e exige constância para conduzir — e é por isso que o acompanhamento faz tanta diferença.

Um último ponto, que não é jurídico e sim clínico: nenhum texto substitui uma avaliação individual. Cada lesão, cada história de recidiva e cada imunidade é diferente. Se você tem uma verruga, notou algo novo na pele genital ou recebeu um laudo que não entendeu, vale sentar com um urologista e examinar com calma. Veja como funciona a primeira consulta se quiser conversar sobre o seu caso.


Sobre o autor
Dr. Julio Cesar Campos Bissoli — CRM 120296 SP | RQE 57058. Urologista com subespecialização em Urologia Reconstrutiva e Cirurgia de Uretra, responsável pelo Setor de Urologia Reconstrutiva e Cirurgia de Uretra do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP). Atende em consulta particular em Perdizes, São Paulo.

Fontes

  • Ministério da Saúde — HPV (papilomavírus humano): sinais, tratamento e prevenção. gov.br/saude
  • Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021: Anogenital Warts. cdc.gov
  • Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: infecção pelo papilomavírus humano (HPV). Epidemiologia e Serviços de Saúde / SciELO. scielo.br
  • StatPearls / NCBI Bookshelf — Penile Cancer and Penile Intraepithelial Neoplasia. ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diante de sintomas, procure um urologista para avaliação individualizada.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diante de sintomas, procure um urologista para avaliação individualizada.

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