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Artigo

Doença de Peyronie: minha experiência clínica e orientações práticas

Por Dr. Julio Cesar Campos Bissoli, médico urologista, CRM-SP 120.296, RQE 57058, responsável pelo Setor de Urologia Reconstrutiva e Cirurgia de Uretra do HC-FMUSP

O que é a doença de Peyronie

A doença de Peyronie é uma placa de tecido fibroso que se forma na túnica albugínea, a membrana que envolve os corpos cavernosos do pênis. Essa placa não estica junto com o resto do tecido durante a ereção, e o resultado é curvatura, encurtamento ou deformidade, e às vezes dor.

O que traz o homem ao consultório quase nunca é o nome da doença. Ele entra e diz: “Doutor, estou com o pênis entortando pro lado direito.” Ou pro esquerdo. Às vezes apalpou um endurecimento no corpo do pênis e não sabe se aquilo tem volta. A placa é tecido de cicatriz, e cicatriz não se desfaz sozinha. Esperar que resolva por conta própria não é um plano.

A doença aparece com mais frequência em quem tem disfunção erétil ou diabetes. Não é uma consequência de um nem do outro, mas é motivo para avaliar os dois quando a curvatura aparece.

No CID-10, a doença é o código N48.6, listado como Induratio penis plastica, com “doença de Peyronie” e “enduração plástica do pênis” como sinônimos. É o código que aparece em pedido de exame, guia de convênio e relatório médico.

Transcrição do começo do vídeo:

Fala um pouquinho de doença de Peyronie e curvaturas. A doença de Peyronie é a curvatura peniana que não é de nascença, não é uma curvatura que vem com você desde criança, é uma curvatura que foi adquirida.

Se fosse de nascença, chamaria pênis curvo congênito. O pênis curvo congênito normalmente as crianças têm diagnóstico precoce e são corrigidas eventualmente na infância, não chegam aqui na vida adulta com a curvatura.

O Peyronie é uma doença de etiologia diferente do pênis curvo; são curvaturas que podem chegar até 90°, eventualmente mais do que 90°. A teoria nos diz que são devidas a microtraumas, geralmente microtraumas na hora da penetração.

Esses microtraumas causam fissuras ali na albugínea, que é a capa dos dois bastões penianos, e essa capa hipercicatriza, hiperinflama, e isso leva a uma calcificação secundária.

Então já deu para entender que a doença normalmente começa com inflamação. Nos sintomas iniciais pode ser dor peniana, dor às ereções, dor de um lado específico do pênis.

Normalmente isso evolui para calcificação, e essa calcificação vai causar a curvatura, porque ao calcificar um lado estica e o outro não. O lado calcificado não estica, então geralmente dobra para o lado que não cresce, que não estica.

Curvatura congênita e curvatura adquirida são condições diferentes

A primeira pergunta que separa as duas hipóteses é simples: sempre foi assim, ou mudou? A resposta muda tudo o que vem depois.

A curvatura congênita aparece na adolescência

A curvatura congênita vem de um desenvolvimento desproporcional da túnica albugínea. Está presente desde as primeiras ereções, não tem placa palpável, não dói e não progride. Quem tem curvatura de nascença não tem doença de Peyronie. E a curvatura por freio curto, que traciona a glande para baixo na ereção, é outra situação ainda, com correção própria.

A curvatura da doença de Peyronie aparece na vida adulta

Na doença de Peyronie existe um período em que o pênis era reto. A curvatura se instala depois, ao longo de semanas ou meses, quase sempre com um endurecimento que se apalpa e frequentemente com dor na ereção. É a combinação de curvatura nova, placa e dor que fecha o quadro.

 Curvatura congênitaDoença de Peyronie
Quando aparecedesde as primeiras ereçõesna vida adulta
Placa palpávelausentepresente
Dor na ereçãonãocomum na fase ativa
Evoluçãoestávelmuda enquanto a doença está ativa

A doença de Peyronie tem duas fases, e o tratamento depende de qual delas

Esta é a informação que decide a conduta, e é a que costuma faltar para quem chega ao consultório com o diagnóstico já feito.

Fase ativa: dor e curvatura em mudança

A placa ainda está se formando. A curvatura muda de um mês para o outro e pode haver dor na ereção. É a fase em que o quadro pode piorar. É também a fase em que não se opera, porque corrigir uma curvatura que ainda está mudando não faz sentido.

Fase estável: placa madura e curvatura fixa

A dor cessou e a curvatura parou de mudar. A placa está madura e pode até calcificar, ficando mais fácil de apalpar. É nesta fase que a correção da deformidade entra em discussão.

 Fase ativaFase estável
Dor na ereçãofrequentecessou
Curvaturaem mudançafixa
Placaem formaçãomadura, pode calcificar
Condutacontrolar a dor e acompanhardiscutir correção

Quando avaliar

O que decide a urgência da avaliação não é o quanto o pênis está torto. É se a curvatura está mudando. Quem tem dor na ereção e percebe a curvatura aumentando de um mês para o outro está na fase em que o tempo importa. Quem tem curvatura estável há mais de um ano não tem pressa. Tem uma decisão a tomar, e ela pode ser tomada com calma.

O diagnóstico da doença de Peyronie é clínico

O que fecha o diagnóstico é a história e o exame, não um exame de laboratório. A avaliação documenta quando a curvatura apareceu, se está mudando, se dói, se interfere na relação sexual, e apalpa o corpo do pênis em busca da placa.

Quando o ultrassom entra

Peço o ultrassom com Doppler quando se planeja cirurgia. Ele localiza e mede a placa, mostra se há calcificação e avalia o fluxo de sangue no pênis. Complementa o exame. Não é ele que fecha o diagnóstico.

Tratamento na fase ativa: controlar a dor e acompanhar a curvatura

É a fase em que não se opera, porque operar uma curvatura que ainda está mudando não faz sentido. O que se discute nessa fase são medidas para controlar a dor e tentar limitar a progressão. Algumas são por via oral, outras injetadas na própria placa. Nenhuma delas tem respaldo forte na literatura, e é honesto dizer isso: são opções com benefício incerto, escolhidas caso a caso, e cada uma tem seus próprios efeitos adversos. Qual cabe, se alguma, se decide em consulta, depois do exame. Nada disso se automedica.

Depois da primeira consulta, reavalio uma vez por ano, e antes disso se a curvatura piorar.

Ondas de choque servem para a dor, não para a curvatura

O objetivo das ondas de choque de baixa intensidade é restrito. A diretriz da Associação Americana de Urologia, de 2015, admite, como recomendação condicional, o uso para a dor e recomenda não usar para reduzir a curvatura ou a placa.

Quando indico, é pela dor, e aviso antes que elas não servem para endireitar o pênis. A outra situação em que considero é o pênis em ampulheta, quando o corpo do pênis afina num ponto, como a cintura de uma ampulheta. Nesse formato, acho possível que ajude.

Tratamento na fase estável: quando a cirurgia entra

Não existe um número de graus que decida a cirurgia

O que pesa é se a curvatura impede a penetração, se dói, se a doença está estável e como está a rigidez. Isso se mede em exame, não em casa.

A cirurgia entra em discussão quando a doença está estável e a curvatura impede a relação sexual. Considero estável quem passou pelo menos 6 meses sem a curva piorar. A cirurgia não é procedimento estético e não devolve o pênis ao formato que ele tinha. Cada técnica tem um custo, e a escolha depende de exame e conversa. É trabalho de cirurgia reconstrutiva urológica.

Respondo pelo Setor de Urologia Reconstrutiva e Cirurgia de Uretra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP).

Plicatura

Encurta o lado oposto à curvatura com suturas, para reduzir a curva. É a técnica de menor porte, e o custo é o encurtamento do pênis.

Enxerto

Abre ou remove a placa e cobre a falha com um enxerto. Preserva mais o comprimento e tem risco maior de perda de rigidez.

Prótese peniana

Indicada quando já existe disfunção erétil que não responde a medicamento. Tem como objetivo devolver a rigidez e tratar a curvatura na mesma operação.

Nenhuma delas garante um pênis reto.

Colagenase: não está disponível no Brasil

Quem pesquisa sobre a doença, ou pergunta a uma IA, acaba encontrando a colagenase injetável, aplicada na placa para tentar dissolvê-la. Até setembro de 2026, ela não está disponível no Brasil. A pomada de colagenase vendida em farmácia é outro produto e não trata a doença.

Quando vale marcar uma consulta

Vale marcar se a curvatura apareceu na vida adulta, se dói na ereção, se você apalpa um endurecimento no corpo do pênis, ou se a curvatura atrapalha a relação sexual. E vale marcar mais cedo se ela ainda está mudando, porque é a fase em que a conduta é diferente.

Se a dor passou, isso não significa que acabou. Significa que a doença provavelmente entrou na fase estável. É justamente nessa fase que se decide o que fazer com a deformidade que ficou.

Se você mora longe, posso começar pela sua história e pelos exames que você já fez numa consulta por vídeo. Ela não substitui o exame: a placa se apalpa, e isso é feito aqui no consultório, em Perdizes.

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Referências

  • Nehra A, Alterowitz R, et al. Peyronie’s Disease: AUA Guideline. J Urol. 2015 Sep;194(3):745-53. PMID 26066402.
  • European Association of Urology. Guidelines on Sexual and Reproductive Health, ed. 2026, cap. 8, Penile Curvature.
  • Ministério da Saúde / DATASUS. CID-10, cap. XIV, N48.6, Induratio penis plastica.

Perguntas frequentes

A doença de Peyronie tem cura?

Não. A doença tem controle, e o que se controla muda com a fase. Na fase ativa, acompanho a curvatura e trato a dor, com reavaliação uma vez por ano, e antes se piorar. Quando a doença estabiliza e a curvatura que ficou impede a relação sexual, a cirurgia pode tratar a deformidade, sem garantia de um pênis reto.

Pênis torto é sempre doença de Peyronie?

Não. A curvatura congênita vem de um desenvolvimento desproporcional da túnica albugínea, não tem placa nem dor e já está presente desde as primeiras ereções. A doença de Peyronie é adquirida: instala-se na vida adulta, tem placa palpável e a curvatura muda ao longo de meses. Quem procura o consultório por pênis torto pode ter uma coisa ou a outra, e a diferença muda todo o tratamento.

Como saber se tenho doença de Peyronie?

O que faz o diagnóstico é a história e o exame, não um exame de laboratório. Os sinais são a curvatura que apareceu na vida adulta, o endurecimento que se apalpa no corpo do pênis e a dor na ereção. A avaliação urológica documenta a deformidade, a interferência na relação sexual e a dor. O ultrassom com Doppler entra quando se planeja cirurgia, para localizar e medir a placa. Não é ele que fecha o diagnóstico.

A curvatura da doença de Peyronie piora com o tempo?

A doença corre em duas fases. Na fase ativa a dor na ereção e a mudança da curvatura ainda estão acontecendo, e é nela que o quadro pode piorar. Na fase estável a dor cessou e a curvatura não muda mais. A fase em que o paciente está é o que define o que se pode fazer, e é por isso que a primeira avaliação importa tanto.

Qual é o CID da doença de Peyronie?

O código é N48.6, listado no CID-10 como "Induratio penis plastica", com "doença de Peyronie" e "enduração plástica do pênis" como sinônimos. É o código que aparece em pedido de exame, guia de convênio e relatório médico. Ele identifica a doença; não diz em que fase ela está nem qual tratamento cabe.

Quando a doença de Peyronie tem indicação de cirurgia?

Considero a cirurgia quando a doença está estável, o que para mim significa pelo menos 6 meses sem a curva piorar, e quando a deformidade impede ou atrapalha a relação sexual. Operar com a doença ainda ativa corre o risco de corrigir uma curvatura que vai continuar mudando. Qual técnica cabe depende do comprimento do pênis, da rigidez da ereção e do tipo de deformidade. Não existe uma cirurgia única para todos os casos.

A doença de Peyronie tem tratamento sem cirurgia?

Existem tratamentos não cirúrgicos, e o que eles buscam depende da fase. Na fase ativa, o alvo é a dor: as ondas de choque podem aliviá-la, mas não reduzem a curvatura, segundo a diretriz da Associação Americana de Urologia de 2015. A colagenase, injeção que tenta dissolver a placa, não está disponível no Brasil. Nenhum deles substitui a correção cirúrgica quando a deformidade impede a relação sexual, e a escolha se faz caso a caso, na consulta.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Diante de sintomas, procure um urologista para avaliação individualizada.

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